segunda-feira, 6 de outubro de 2008

primeiro turno

Perdi a conta de quantos assuntos estão pendentes, mas você não aparece! Passo por aqui a sua procura e nada. Cansou de mim? Você sabe, um atraso e já me sinto abandonada... Tanto tempo de silêncio é um desamparo! Quase irremediável.

O mundo está mais caótico que no domingo passado. As bolsas de valores (os homens chamam assim!) despencaram por toda a parte. Anunciaram a morte do trema e de outros diferenciais para a nossa língua. O tempo não acha direção: é um tal de frentes frias e quentes que em breve, quando determinarem o horário de verão em plena primavera, estaremos em dúvida se o inverno realmente acabou. Hoje mesmo o mês (será que esse acento vai permanecer?) virou, mas isso não impediu mais um domingo de chuva fina.

Fui votar. Primeiro o dever cívico, mas depois corri para a nossa esquina crente de que hoje você não me escapava, e... nada. Comi uma coisa correndo e resolvi ir pra casa acompanhar a apuração. Medo, meu caro. Muito medo da falta de opção. Mas, ufa, segundo turno. Acalanto alguma ilusão. A chuva engrossou mais um pouco, ralentando o dia. Resolvi então conferir os nossos próximos possíveis vereadores. Pra que! Querido, são 27 partidos nos oferecendo 1.224 candidatos! Temos dois partidos comunistas, o Brasileiro e o do Brasil. Sete trabalhistas: pra tudo que é gosto – Cristão, Renovador, Socialista Unificado, Brasileiro, do Brasil, Nacional e sem sobrenome... Partidos Socialistas, Democráticos, Republicanos, Progressistas e Liberais são todos, claro! É difícil decidir.

Vamos aos candidatos afinal. Generalizações são sempre perigosas, uma tangente do preconceito. Num levantamento rápido, perdi a conta de quantos “Doutores” e “Professores” tínhamos à nossa disposição e você sabe, candidato tem nome artístico. O Dr Magnelson, por exemplo, está sem chance, mas o Prof. Uoston, com seus 14.281 votos, no mínimo deverá ser suplente... deve ser gente de respeito, você não acha?

Para ser candidato, fiquei sabendo que é necessário ser brasileiro; alfabetizado; ter maioridade; gozar o pleno exercício dos direitos políticos; estar listado eleitoralmente; há pelo menos um ano ter domicílio eleitoral na circunscrição e ser filiado a um partido político. Condições cumpridas portanto por candidatos como Tarzan, Sombra, Papai Noel, Cheiroso e Bacana. A nossa sorte é que eles foram ultrapassados por Betinho Já É!!! (as exclamações fazem parte do nome) e Edivaldo Popular Baixinho, que por sua vez também ficaram para trás. Já pensou a Câmara dos Vereadores que eles comporiam?

Mas, cá pra nós, a democracia é realmente nobre. Estavam lá, com número, partido, coligações e pleito o Tuninho das Bicicletas, o Waltinho da Academia (e o Claudinho também), o Joca da Quitanda, o Jorginho da Guarda, e o das Vassouras. E chefiando essa turma, meu amigo, disputando o nosso voto, o Cícero do Jegue e o Barriga do Açougue.

Tinha o Vovô Golçalves, o Zé da Vó e o Wilsinho Xodó da Vovó. Impressionante! E com esse negócio de que a gente só pode escolher um, fica complicado. Como decidir entre Margarida das Comunidades e Maria Chupetinha? Me diz! Gasparetto ou Gasparzinho? Hein? Pensas que acabou? Não estamos nem na metade. Fiquei louca com uma turma da pesada. Malandro bom sabe? Daqueles da Lapa no tempo do terno de linho e chapéu Panamá. Saca só a lista, todos eles esperando por você: Pedrinho Fogo Puro, Raimundo Camelô, Jorge Baixa Renda. Esse deve ser honesto! Tal qual Julio César Cidadania, com nome de imperador e tudo. É pra ficar na história! E Gilberto Tt Barão, Pantera Van Q Vem, Tião Bigode... O que dizer de Rutinaldo Mofato! E de Alcoobola?!

Já me via caminhando nas ruas estreitas de paralelepípedo, apreciando a noite de outros carnavais, quando fui surpreendida de jeito. Pela honra do meu voto, pregando na praça estavam Kaká da Fé e o Pastor Nilson O Abençoado. Disputavam aleluias com A Bispa Lourdes P Glória de Deus e com a Graça Abençoada. Todos em coro. O Senhor seja louvado!

Um caleidoscópio do povo! No desespero, tanto deve valer a fé quanto a magia. Tem lugar até para o Amigo Mago e o Abracadabra. E há também o grupo da redenção: Luiz O Enfermeiro do Povo ou Ari Virgínio O Remédio, além do Corrêa Neles. Nesse espírito tão afetuoso foi triste saber que Carlinhos O Seu Querido não conseguiu nenhum voto, tadinho, não deve mais ter mãe...

Acabei comovida realmente com o Talbinha. Ele prometeu lutar contra as enchentes. E disso, o Rio tá precisando. Quanto mais nesses dias assim... Vou dormir tranquila hoje. Já sem trema, antecipando os novos tempos, quando o Rio há de ter solução.

Continuo te esperando, saudade;
Guilhermina

PS. A segunda amanheceu seca. E agora já é fato, para vereança teremos por longos quatro anos a família Garotinho, o Bombeiro Girão e Carminha Gerominho. O povo é tão soberano quanto sua lucidez, certo? Como será que andam as pesquisas para habitarmos a Lua ou Marte?

domingo, 28 de setembro de 2008

domingo cinza, que maravilha!


Domingo cinza, muita chuva, fim de setembro, pouca grana. Primavera? Frente Fria! Uma xícara de café vai melhor que chope. E o jornal. Artigo pra perder o dia... Um orgia. Festa na metrópole. Um pouco de tudo, você viu?


Caderno de esportes só pra começar: o artilheiro quer vir vereador, um luxo! Na foto, só pra ilustrar, os filhos gêmeos, um casal. Ambos têm nomes que são uma corruptela dos nomes paternos, seguidos de “Maravilha”. Isso mesmo, meu caro: seu filho, como numa fábula, se chamaria Ata Maravilha ou, se você preferisse, Ulfo ou ainda Atufon Maravilha! Ao seu inteiro gosto. Mas, deixa esporte pra lá...


Vamos do início. Política. As eleições estão próximas, o que pode ser mais importante? Pesquisa básica. Seis ou sete candidatos respondem. E as perguntas são simples. Nada de estratégias ou planejamento, que isso é coisa pra depois. Por enquanto só queremos saber se conhecem a realidade... Um pouquinho, vai. Amostra grátis. Coisas como o preço dos ônibus, do pedágio da nossa Linha Amarela. Sabe qual é, né? Aquela que une a tragédia à miséria. Um verdadeiro campo de treinamento de guerra... Mas não vamos desviar do assunto, que eleição é sempre tempo de esperança. A bandeirada do táxi. Conhece? Artigo de luxo! O reajuste do IPTU, como é que se faz? E o lixo, quem retira? Salários, categorias fundamentais – médico, professor e gari... Ataulfo!!!!!!!!!!! Eles não sabem, não conhecem, não ouviram falar. E agora?


Mas calma, falta economia. O mundo está em pânico. Impossível não saber. Alarde. Alarme. Vamos ouvir os especialistas. A frase veio de longe. Nouriel Roubini, professor de Economia da Universidade de Nova York. “...De mercado livre num capitalismo selvagem, hoje adotamos algo que se parece com o socialismo. Mas é socialismo para Wall Street e os bem conectados. Estamos privatizando os lucros e socializando as perdas”.


Por favor, meu amigo, um minuto de silêncio.


Lembrei da conversa de sexta-feira passada. Na sua ausência, sentei com Rita e dona Flores, e elas, pessoas mais risonhas que nós, mais atualizadas na arte de viver bem, descoladas no drible e na ginga, reclamaram de nossa sovinice diante das coisas boas da vida... Assim, fui passear pela revista da TV. Não tinha erro. Folhetins, sessões da tarde e temperaturas máximas... Pois bem, meu amigo, acho que vou ter que tomar umas aulas de direção com as duas “meninas”. A primeira página já anunciava que a sensação do momento é o Dodi... um canalha, mau-caráter, um scarface tupiniquim. Sucesso às 21 horas! Virei a página como se virasse a esquina. Haveria de ter um bom romance. Novela das seis, quem sabe. Entrevista com o autor. Reta final e pasme, diante das crianças e da quarta idade, platéia mais assídua do horário, ele vai enlouquecer à morte a heroína e sem saber o que fazer, vai matar o mocinho também. Tem jeito? Quem sabe amanhã, segunda-feira.


Beijo

Guilhermina



sexta-feira, 26 de setembro de 2008

mais vale um pássaro.



Ataulfo,

É isso que me fascina em você. Essa capacidade de em cinco minutos me permitir discordar de você e nos cinco minutos seguintes me comover, como conseguiu com um roteiro tão simples: andar, ir, vir e querer – revisão e reparação. Queria tatuar suas palavras até que me entrassem pelos poros, percorressem meu corpo até que fossem uma parte tão natural quanto a respiração.

De resto, entendi que partilhamos do mesmo desamparo diante da perspectiva de pagar ingresso para pensar, mas nossos motivos não são os mesmos. E, além disso, acho que seu antagonismo é mais veemente que o meu. Se entendi sua posição, a discussão por si é vão – masturbação diante do precipício. Ela só se justificaria por um ato que deveria ser-lhe conseqüente, como condição de existência, e dirigida ao outro, por causa e paixão.

Se concordo que a existência só se justifica pelo encontro, discordo no entanto de que o exercício do pensamento, tanto em seu vôo solo quanto em companhia do bando, não tenha valor por si. Dois motivos essenciais me garantem tal entendimento de valor, eu diria, inestimável.

O primeiro consiste no credo de que esse exercício, quando solitário, é a única via por onde cada um toma a si mesmo nas mãos, circunscrevendo seus desejos, paixões, causas, conflitos e impedimentos. Dessa forma, trata-se de um ato político e constitucional. Aquilo que nos dá contorno próprio e nos difere da massa que nos ameaça como uma tsunami.

O segundo motivo se escora na premissa de que cada um de nós só se transforma no encontro e, convenhamos, isso se dá na maioria das vezes, sem nenhum glamour ou alarde posto que se anuncia, via de regra, naquele instante em que a palavra alheia nos arrebata como um ato e nos cala. Resumindo, pensar e trocar me parecem um ato e uma arte.

O que me desampara, portanto, reside no fato de que tenhamos nos tornado tão analfabetos que sejamos obrigados a testemunhar esses “cursos” ortopédicos e fisioterápicos da mente, do discurso e da existência. E pior, o impasse: essas são as novas “ordens de troca”, da qual não posso fugir?

Querido, tenho que ir. A gente se vê em breve. Mas, antes, só uma perguntinha: você gosta de salada de atum?

Beijo,
Guilhermina

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ando, vou, venho e quero.


Ando reunindo os mancos

Vou aglomerando os tortos

Venho interrogando os francos

Quero reviver os mortos


Ando organizando os fracos

Vou multiplicando os poucos

Venho rejuntando os cacos

Quero conversar com os loucos


Ando interpelando os fortes

Vou encarcerar partidas

Venho unificando as mortes

Quero indivisível a vida


Ando infernizando os “santos”

Vou santificando a luz

Venho incinerando os prantos

Quero retirar a cruz


Ando atracando os mares

Vou abalroando o cais

Venho ascendendo aos ares

Quero reencarnar em paz


um desejo só, não basta

Querida Guilhermina,

“Suruba” pensante e paga é coito intelectual onde, geralmente, nem todos gozam. Eu, particularmente, venho transformando-me num eremita cerebral que, quando das suas visitas, deleito-me com as trocas, embates e discussões. São escassos os diálogos e intermináveis os monólogos sem um único som emitido. É sempre bem-vinda a sua chegada ao meu “Tibete”.

Amiga, jamais acreditei que discutir o mundo, suas mazelas sociais ou atualizações antropológicas, pelo simples prazer de discuti-lo, ainda mais pagando para, sem ao menos alguma causa, paixão e, claro, a mínima tentativa de concretização da emoção levasse a algum lugar. Quem quer expor as idéias como principio de uma ação, precisa sim, do planejamento pela arquitetura do intelecto, mas, se após a primeira etapa, a engenharia do pensamento não agir e o mestre de obras não acirrar os movimentos dos operários do saber, tudo reverte-se apenas em namoros cerebrais e verbalizações sobre o orgasmo do Papa.


Quem quer, assim como nós, pensa, emite, escreve e absorve o outro para tentar, exaustivamente, mesmo que sejam só dois bípedes elaboradores, objetivar as causas, apalpar as paixões e, no nosso caso, através da Arte concretizar as emoções. Isso tudo nos é doado gratuitamente por Deus. Pagar para pensar me dará a sensação de fisioterapia para um cérebro inerte. E os nossos... PQP!


Em relação ao esfacelamento do pensamento nacional pelos monopólios, quase nazistas, das instituições de poder, concordo integralmente e quero beijar sua alma pelo maravilhoso texto.

Com carinho,

Ataulfo


PS 1: Gui, família é igualzinha a uma lata de atum prensado. Quando se abre e sai o conservante é um Deus nos acuda!!

PS:2 A seguir, em versos...

beijos



terça-feira, 23 de setembro de 2008

quanto custa pensar?

Vamos falar sério! Só nesta última semana duas notícias com o mesmo tema no jornal:
  • A inauguração da Telezoom – um espaço para discutir a atualidade, que tem como diferencial “parecer a sua casa” e não uma sala de aula – numa cobertura aqui do lado, na Dias Ferreira.
  • E agora, no domingo, uma coluna do mesmo veículo descreve para nós o projeto londrino “Escola da Vida”, do escritor Alain de Botton – uma escola com a proposta de pensar a vida através de conteúdo “extra-curricular”.
Como você vê, companheiro, o negócio é mundial! Eu, francamente fiquei dividida: metade já queria saber quanto custava “um curso de pensamento”; a outra me repreendia – quanto custa o quê? Guilhermina!... Guilhermina! Só me faltava essa; agora você vai pagar para pensar?

Já vejo seu cenho franzido com essa minha mania de contar o “causo” sem chegar à conclusão. É que vou pensando enquanto vou falando. Um convite, um pedido pra você pensar comigo. Mas, vem cá, isso não é normal? Eu sempre achei normal pensar, questionar, falar, discutir, ouvir, retrucar, divergir, ponderar, re-fletir, concluir... assim mesmo, com reticências... até que alguém ou eu mesma, por algum motivo, reinicie a questão e lá vamos nós tudo outra vez até encontrar algo de-novo... retificar, ratificar. Ter uma posição. Até ter outra. E isso acontecia na sala da minha casa, ou da sua, num encontro na esquina, no pátio da escola, no campus da universidade, na pizzaria aqui perto, no aniversário de alguém, no chope depois do cinema, no final de semana passado na casa de amigos, aqui bem pertinho: na serra ou no mar... e isso era o normal, assim mesmo, com pronome definido.

É verdade, ainda me lembro bem da primeira vez que experimentei a desagradável sensação de ser uma chata. Estávamos reunidos, alguns amigos de sempre e algumas outras pessoas, daquelas que vão e vêm – namorado ou namorada nova; alguém que alguém queria que conhecêssemos e de repente, sem que eu me lembre do rosto do autor (ainda bem), escutei “Ih, papo cabeça?! Ah, não!” O mundo começava a cindir. De um lado, o saber passou a exigir certificados e títulos, senão não merecia crédito, aliás, nem ouvidos. Do outro, e para uma maioria, comédia virou besteirol (para agonia de Brecht); angústia virou “nóia”; contestação, hard rock. A música perdeu letra e poesia. Puro “balanço” – pode ser pop, lounge, techno, hip hop ou funk, vai? Por algum motivo deve falar inglês e cumprir uma das duas condições: ou gritar bem alto, rave, para se dançar até à exaustão ou apresentar-se too much cool, sem fazer barulho, só o suficiente para preencher vazios... sem dar idéia.

Você sabe, já te falei antes, que penso que essa foi a grande força-tarefa; o maior e mais bem sucedido golpe da ditadura – aniquilar o pensamento crítico e autônomo e devastar o sentido dos grupos e dos encontros. A alienação, a solidão e a ignorância são ótimos aliados do oportunismo. Ficou fácil na medida em que as letras foram sendo substituídas pelos números. Rápido não foi mais necessário saber, bastava estar “antenado” às tendências. Ser fashion e up to date.

A
os poucos que resistiram sobrou o confinamento do pensamento, onde cada um se tornou o algoz de si mesmo, marginal por sua própria percepção silenciosa do mundo.

Agora você entende, meu amigo? Entende minha indignação e meu dilema? E aí, Ataulfo, pago ou não pago para pensar em coletivo?

Por favor, saia desse silêncio, um beijo,
Guilhermina

terça-feira, 16 de setembro de 2008

latifúndio



Meu amigo, não pude vir te encontrar nesses últimos dias... Que saudade e que falta você me fez. Fui ver meus pais no interior e aproveitei para fazer-lhes companhia num daqueles “eventos de família”, sabe? Durante esses três dias pensei muitas vezes em você. Queria sinceramente compartilhar o olhar. Te explico: você já sabe que minha família é enorme. Meu pai teve quatro irmãos e duas irmãs e minha mãe, cinco no total. Imagina quantos primos tenho? E esses por sua vez já tiveram, quase todos, filhos. Progressão geométrica. É de perder a conta! Agora suponha, e só suponha, a variedade da fauna... É impressionante a diversidade humana apesar de uma mesma origem genética!


Passei a infância atravessando a baía de Guanabara naquelas barcas que transportavam carros, antes da ponte Rio-Niterói, rumo ao norte do estado. A viagem era longa, mas os dias de pé no chão e de frutas tiradas dos pés e degustadas ainda suspensa nos galhos valiam a pena. Hoje, no entanto, não sei se são os olhos infantis que inventam sabores ou se o tempo é realmente responsável por oxidar o gosto de quase tudo. Desta vez, depois de muito tempo ausente dos tais eventos, lá estava eu, perto mesmo que “de fora”, na porta da igreja da minha criancice, esperando a noiva que meu primo também aguardava, só que no altar.


Desse lugar privilegiado como o camarote do rei, contei as linhas que o tempo desenhou nos rostos dos antigos heróis. Alguns já quase sem musculatura, esquálidos, mais pareciam cabides cobertos pelos ternos. Outros, ao contrário, carregavam o sobrepeso como se fosse o fardo da própria existência. Os óculos tornaram-se uma parte do corpo, mesmo que algumas mulheres, mais vaidosas, fingissem tratar-se de um acessório. Estavam todos lá: O tio bancário, pacato e encurvado, que sempre se gabou de sua vida programada e previsível ao lado da mulher, que por sua vez orgulhava-se de nunca ter precisado “de trabalhar pra fora”. Ao seu lado, o tio empresário, que está sendo julgado por um dos escândalos que esse nosso país insiste em nos fazer crer tratar-se de uma banalidade... Meu tio continua livre e rico, com seu filho rechonchudo – profissão: assecla do pai. O que eu lamentava só de olhar, minha prima comentava com o marido como o sucesso familiar. O mais velho dos irmãos, também presente, ressentido de, como o pai, ter falido depois de construir o que todos supunham ser um império. E esses dois irmãos, uma reedição de Caim e Abel. Lá estava também a tia solteirona, que passou a vida cuidando da mãe doente de Alzheimer e do irmão esquizofrênico, ambos presentes in memorian. Havia ainda o casal moralista e silencioso, gente de bem – leão e domadora do Lion’s. E claro, o caçula e sua certeza de que tudo ali era perfeito e que ele, o melhor representante dessa certeza.


Estavam lá as primas gêmeas idênticas, a outra que quase morreu no parto, a mais bonita de todas nós, submetida ao marido ciumento, o gay, o que já foi internado para desintoxicação, a que foi traída, a que foi casada com um psicótico e lesada por querer se livrar dele... enfim, os ingredientes que confirmam o meu sentimento de que toda vida é um drama, toda família uma saga. O tom do texto – comédia, terror ou romance – depende apenas do talento do contador da história.


É bom estar de volta, um beijo, Guilhermina.

PS - E você? Por onde anda?